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Noções
básicas de acústica para estúdios
É
muito comum uma pessoa querer transformar uma sala ou quarto de sua
casa num estúdio e achar que para isso basta forrar as
paredes
com carpete, cortiça ou até mesmo embalagens de
ovos.
Infelizmente, nem todos compreendem que as
soluções
acústicas podem até ser simples, mas é
preciso
entender os fenómenos para encontrar as formas mais
adequadas de
resolver os problemas.
O objectivo deste artigo é apresentar alguns conceitos
básicos e mostrar novas formas de melhorar a
acústica de
um estúdio. Para questões mais complexas,
recomendamos
consultar profissionais qualificados.
Dimensões do estúdio
Este é um aspecto muito importante diz respeito
às
dimensões físicas do recinto. Geralmente existem
frequências do espectro de áudio que podem
produzir "ondas
estacionárias" no ambiente, quando os comprimentos das ondas
sonoras coincidem com as distâncias entre paredes, tecto e
chão. A primeira solução para evitar
esse
fenómeno indesejável é projectar o
estúdio
com dimensões que dificultem o aparecimento das ondas
estacionárias (alguns projectistas preferem até
criar
estúdios com paredes e tectos não paralelos).
Deve-se
evitar recintos com distâncias iguais (ou
múltiplas) entre
paredes e entre piso e tecto, uma vez que isso facilita a
ocorrência de ondas estacionárias. Além
disso, a
maior dimensão (digamos, o comprimento do
estúdio)
não deve ser mais de quatro vezes maior do que a menor
dimensão (digamos, a altura do teto). Por outro lado, um
recinto
muito pequeno poderá tornar difícil o tratamento
acústico para corrigir as "colorações"
criadas no
som pelas diversas reflexões. Salas maiores em geral
são
mais fáceis de ser tratadas acusticamente.
É recomendável fazer uma análise do
comportamento
acústico mais provável de acontecer no recinto,
baseando-se nas distâncias entre paredes e altura
do tecto.
A partir das conclusões dessa análise, pode-se
saber se
as dimensões são críticas ou
viáveis. Se
são críticas, devem ser redefinidas. E como nem
sempre
é possível determinar as dimensões do
recinto
mudando as paredes de lugar, muitas vezes a
solução
é construir uma nova parede à frente da original,
ou
rebaixar o tecto. Se as dimensões do recinto são
viáveis, é necessário então
avaliar quais
os materiais a utilizar e de que maneira deverão ser usados,
para que se possa eliminar as imperfeições
acústicas que possivelmente ainda poderão ocorrer.
Para saber o comportamento acústico de um recinto
rectangular,
sugerimos que utilize esta formula de Excel disponível
como download no
site da revista Música
& Tecnologia. (após o donwload do ficheiro
renomeie o mesmo para Cálculo.xls e abra-o com o
Excel)
Enquanto ainda está na fase de escolha da
concepção do estúdio, é
também
importante pensar previamente nas instalações
eléctricas e, principalmente na
instalação do
sistema de ar condicionado. Se for necessário construir
paredes
ou tectos extras, verifique atempadamente as possíveis
interferências com eléctrodos (para
iluminação e alimentação de
energia) e
tubos de ar condicionado. Certifique-se de que as
alterações das paredes e tecto para a
solução acústica não geram
problemas
noutras áreas. Lembre-se sempre de que é melhor
perder um
pouco de tempo antes de fazer do que ter que refazer tudo de novo!
Isolamento acústico
Cada tipo de material possui uma característica
própria,
no que se refere a isolamento acústico, dependente da sua
densidade e também de sua espessura. O parâmetro
chamado
de classe de transmissão sonora (STC) é um valor
numérico de classificação que mostra a
redução da transferência do som
através de
um determinado material, ou combinação de
materiais. Essa
classificação geralmente aplica-se a materiais
duros,
como o tijolo, o concreto ou a massa de parede entre outros.
É
verdade que qualquer material bloqueia uma porção
da
transmissão do som, mas efectivamente, os materiais de alta
densidade são melhores nesse aspecto do que os materiais
leves.
A solução mais comum para reduzir a
transferência
do som de um ambiente para outro é o uso de parede dupla,
com um
espaço entre elas, que pode ter apenas ar ou um material
mais
absorvente (ex: lã-de-vidro). Quanto maior for o
coeficiente,
melhor será o isolamento. A tabela abaixo mostra alguns
exemplos
de materiais.
| MATERIAL DA PAREDE |
STC |
| parede dupla de gesso
16mm c/ miolo de 10cm de lã-de-vidro |
38 |
| parede dupla de gesso
32mm c/ miolo de 10cm de lã-de-vidro |
43 |
| parede de tijolos de
concreto com furos cheios de areia |
53 |
Não esquecer que o isolamento deve ser eficaz nos dois
sentidos,
isto é, não deve permitir a passagem do
ruído
ambiente (tráfego por ex.) para dentro do
estúdio, bem
como evitar que o som do estúdio seja ouvido no exterior. Em
alguns casos, é fácil isolar o som externo, mas
torna-se
muito difícil evitar que o som produzido no
estúdio
incomode os vizinhos!
Infelizmente, a maioria das paredes de
construções comuns
não possui densidade e espessura suficientes para abafar
efectivamente o som (tanto de dentro para fora quanto de fora para
dentro). Além disso, geralmente as casas ou
imóveis
comerciais possuem janelas e portas sem qualquer tratamento especial,
através das quais o som pode passar com facilidade.
No caso de janelas voltadas para o exterior, a melhor
solução é eliminá-las
definitivamente,
fechando-as com alvenaria. Caso isso não seja
possível,
então é necessário
transformá-las em
janelas especiais, com vidros mais espessos (preferencialmente duplos)
e vedações eficientes. Tenha sempre em mente de
que a
janela poderá sempre ser um ponto fraco no isolamento
acústico, além de ser uma fonte potencial de
infiltração de água de chuva, por
exemplo. No caso
de estúdios de gravação, que precisam
de uma
janela interna entre a sala técnica e a sala de
gravação, esta deverá possuir vidro
duplo,
montados de tal forma que não haja contacto directo entre a
estrutura de fixação de cada um (veja figura).
Revestir
simplesmente as paredes com carpete ou outro material comum
não
trará qualquer resultado prático, pois o som
precisa de
"massa" para ser bloqueado. Dessa forma, ainda que eventualmente possa
melhorar a acústica interna, diminuindo
reflexões, a
camada fina da carpete não oferecerá qualquer
resistência à transmissão do som.
No caso de paredes já existentes, uma
solução
é criar uma outra "parede" de gesso, afastada por alguns
centímetros da parede original. O espaço entre a
parede
original e a nova parede pode ser preenchido com material absorvedor,
como lã-de-vidro, por exemplo. É importante estar
atento
aos detalhes de fixação das placas de gesso, para
que
não haja um contacto directo entre as paredes que permita a
transferência mecânica do som de uma a outra.
Também
é preciso eliminar todas as fendas e quaisquer tipos de
frestas,
através das quais o som poderá vazar.
O tecto e o piso originais do recinto também
deverão ser
avaliados dentro do mesmo objectivo de criar barreiras para a
transferência do som. O mesmo princípio da parede
dupla
pode ser aplicado ao tecto, devidamente adequado às
condições físicas (estrutura
suspensa). Uma
atenção maior deverá ser dada quanto
à
vedação de frestas e furos, uma vez que o tecto
rebaixado
geralmente é usado para a instalação
de
iluminação, passagem de cabos e tubos de ar
condicionado.
O piso pode ser uma parte crítica, pois é nele
que
ocorrem os maiores níveis de ruído de impacto,
sobretudo
no caso de bateria e percussão (pedal de bombo, tambores
colocados no chão, etc). Colocar um tapete grosso
não
resolve esse tipo de problema, embora possa atenuar o barulho de
passos, por exemplo. Assim como no caso das paredes e do tecto, a
solução mais indicada é criar um piso
acima do
original, e isolado deste por meio de algum tipo de
suspensão
(blocos de borracha, por exemplo).
Além da preocupação com o isolamento
do
ruído ambiente externo, é preciso avaliar
também o
ruído que será produzido pelo sistema de ar
condicionado
a ser instalado no estúdio. Além do barulho junto
à máquina, deve-se levar em conta ainda a
possível
transferência desse ruído através do
tubo de ar e
também por transmissão mecânica, pela
vibração da estrutura dos tubos e contacto destes
com as
paredes e tecto do estúdio. Uma das
soluções para
reduzir o barulho vindo por dentro dos tubos de ar é
revesti-los
internamente com material absorvedor. E para evitar a
transferência da vibração da
máquina pelos
tubos, é comum fazer um desacoplamento mecânico do
mesmo,
seccionando-o e unindo as partes com uma peça
flexível.
Tais providências em geral causam perda de
eficiência da
máquina, o que deve ser também considerado.
Tratamento acústico
Uma vez construídas as paredes e o tecto do
estúdio (nas
dimensões optimizadas e dentro dos critérios
adequados de
isolamento), é necessário fazer um tratamento
interno das
superfícies, procurando-se as
condições ideais
para a aplicação que se deseja.
Antes de se definir qual o tipo de material a ser usado no tratamento
acústico, é importante conhecer o coeficiente de
redução de ruído (NRC). Ele
é um valor
numérico de classificação que permite
quantificar
a capacidade de um determinado material em absorver o som. Esse
coeficiente em geral se aplica mais a materiais macios, como espuma
acústica, lã-de-vidro, carpete, etc, embora
também
possa ser aplicado a materiais "duros" como tijolo e massa de parede. O
NRC de um material é a média de
absorção de
várias frequências centrais entre 125 Hz e 4 kHz.
Quanto
maior for o coeficiente, melhor será
absorção do
material. A tabela abaixo mostra alguns exemplos de materiais.
| MATERIAL |
NRC em 125 HZ |
NRC em 4 kHz |
| carpete grossa sobre
concreto |
0,02 |
0,65 |
| piso de madeira |
0,15 |
0,07 |
| concreto pintado |
0,01 |
0,08 |
Mesmo com um estúdio construído dentro de
dimensões optimizadas, muito provavelmente ainda
será
necessário fazer algumas correcções,
devido
às reflexões do som que ocorrerão nas
superfícies. O tipo de solução no
tratamento
acústico vai depender da resposta que o recinto estiver a
produzir. Existem soluções orientadas para cada
tipo de
problema.
Há algumas décadas, muitos estúdios
eram
construídos com revestimento acústico
extremamente
absorvedor, de maneira a "matar" totalmente as reflexões.
Isso,
no entanto, tornava muito débil o ambiente
acústico do
estúdio, se comparado aos locais onde normalmente se ouve
música.
Hoje,
os estúdios costumam ter uma acústica "neutra",
geralmente com uma parede mais reflexiva e outra mais absorvedora. Para
se conseguir essa situação, utilizam-se
painéis de
materiais adequados presos às paredes do estúdio,
de
forma a absorver energia das ondas sonoras que atingem as paredes. O
tipo de recurso a ser usado vai depender da faixa de
frequências
do espectro do som que se queira absorver.
Os materiais porosos (espuma, carpete, etc) em geral são
eficientes para absorver agudos, pelo fato destes possuírem
comprimentos de onda pequenos, e assim qualquer pequena irregularidade
do material é capaz de diminuir a energia da onda sonora.
Já no caso dos graves, é preciso criar
dispositivos
compatíveis com os comprimentos de onda grandes, o que
é
feito com painéis especiais de amortecimento (chamados de
"bass-traps"), que vibram com os graves e ao mesmo tempo absorvem a
energia dessa vibração, não devolvendo
a onda ao
ambiente. Em algumas situações, pode ser
necessário reduzir a sustentação de
apenas uma
determinada faixa de frequências do espectro, e para isso
são usados painéis sintonizados, devidamente
calculados.
Conclusão
Como se pode ver pelo exposto, o projecto acústico de um
estúdio envolve vários factores, que devem sempre
ser
considerados. Ainda que se possa estimar previamente o comportamento do
recinto, somente depois de construído e com todos os
equipamentos instalados e operando é que se consegue ter uma
avaliação concreta, pois as
superfícies dos
equipamentos e do mobiliário podem também
interferir no
resultado que se ouve.
Por isso, é aconselhável consultar um
profissional
experiente, que com sua vivência no assunto poderá
prever
com muito mais precisão os resultados.
Referências:
- Exemplos de Projeto de Acústica - Audio List FAQ
- Música & Tecnologia - Download
- Practical Guidelines For Building A Sound Studio - Auralex Acoustics
- Studio Acoustics - Primacoustic
- Building a Recording Studio (Jeff Cooper) - Synergy Group
por Miguel Ratton
Os direitos de publicação deste artigo foram
gentilmente
cedidos por Miguel Ratton e encontra-se também
disponível
no site music-center.com.br
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