Emu Morpheus - módulo sintetizador
Expressividade. Essa é a palavra que melhor poderia definir o Morpheus, o novo módulo sintetizador da E-mu System, lançado oficialmente no NAMM Show ‘94.
Um instrumento musical, por definição, é um dispositivo através do qual o músico pode expressar sua sensibilidade artística e, portanto, quanto mais recursos de expressividade, melhor é o instrumento. Desde que os primeiros sintetizadores começaram a ser oferecidos comercialmente, novos horizontes foram apresentados aos músicos, em termos de sonoridade. Durante todos esses anos de evolução, os instrumentos eletrônicos possibilitaram a criação de novos timbres, impossíveis de serem obtidos por meio dos instrumentos acústicos convencionais. Entretanto, os sintetizadores mais antigos, fora a possibilidade de novos sons (sintéticos), não possuíam muitos recursos de expressividade, pois seus teclados não eram sensitivos, e quase todos eram monofônicos. Com o aprimoramento da tecnologia, novos recursos passaram a ser disponíveis, como teclados com sensibilidade à velocidade com que a tecla é pressionada e à pressão efetuada sobre ele (aftertouch), e isso foi crucial para a aceitação definitiva dos teclados eletrônicos.
Paralelamente à essa evolução de sensibilidade, surgiram os samplers, que permitem ao músico tocar sons de instrumentos acústicos a partir de seus teclados eletrônicos. Embora essas amostras digitais ainda hoje não possam ser consideradas perfeitas, o resultado prático é bastante satisfatório e convincente. No entanto, e infelizmente, muitos músicos atuais estão mais preocupados em ter um instrumento que simule sons de piano, cordas e sax, do que pesquisar as novas sonoridades e texturas, possíveis com os instrumentos eletrônicos. Por isso, salvo algumas exceções, a maioria dos trabalhos musicais de hoje ainda se baseia em timbres bastante convencionais, pouco explorando as possibilidades reais da maioria dos instrumentos.
No decorrer da evolução dos sintetizadores, alguns instrumentos foram marcantes, por causa de suas possibilidades como meios de expressividade. Vale destacar o velho Yamaha DX7, lançado no começo da década de 80, e que, graças à uma tecnologia de síntese totalmente inovadora para a época - a síntese FM - permitia nuances e graduações de timbre que ainda hoje são impressionantes.
A década de 90 promete novidades, com a divulgação de novos desenvolvimentos da indústria musical, que buscam oferecer mais do que se tem nos sintetizadores baseados na arquitetura oscilador-filtro-amplificador. Um grande exemplo disso é o novo instrumento da E-mu Systems, o Morpheus, um módulo sintetizador sem teclado, que traz consigo timbres muito interessantes e, muito mais importante, um potencial imenso de recursos para a produção de sonoridades nunca imaginadas, aliados a facilidades de controle e expressividade jamais apresentadas em outros equipamentos.
Geral
Externamente, o Morpheus pouco difere de seus irmãos Proteus: é uma unidade de rack, com um painel simples, contendo um display iluminado de duas linhas, dois botões (um para controle de volume e outro para seleção de valores de parâmetros), e mais oito teclas para funções diversas. Como no Proteus, no painel traseiro, além das tomadas de MIDI (In, Out e Thru), há três pares de conectores de saída de áudio (Main, Sub1 e Sub2), que tanto podem atuar como seis saídas independentes quanto podem ser usadas como três grupos estéreo. As saídas Sub1 e Sub2 também podem ser usadas como insert de efeitos externos, ou mesmo como entradas para mixar outros instrumentos (ideal para quem não possui mixer). Infelizmente, não foi totalmente corrigida uma característica ruim do Proteus, que é o ruído produzido pelo instrumento ao ser ligado ou desligado (abaixe sempre o volume de seu amp). Alguns detalhes foram melhorados em relação ao Proteus: o botão de dados possui um diâmetro maior, ficando mais cômodo para o uso pelo músico, e a caixa do aparelho agora é de metal. Há ainda um slot para inserir card de dados, possibilitando expandir a memória interna de sons.
O Morpheus é um módulo multitimbral de 16 partes, cada uma operando em um dos 16 canais de MIDI, com uma polifonia total de 32 notas. A geração dos timbres é feita a partir de amostras digitais (samples) armazenados na memória (há 242 delas para se escolher), e o instrumento possui ainda dois processadores de efeitos, que podem adicionar aos timbres os efeitos de reverb, chorus, delay e diversos outros.
Em termos de memória para armazenamento de timbres, o Morpheus possui dois bancos, um de ROM (presets de fábrica que não podem ser alterados) e outro de RAM (alteráveis pelo usuário), cada um com 128 timbres. Entretanto, além disso há ainda um banco com 128 combinações de timbres, chamadas de Hyperpresets, cada uma delas contendo até 16 zonas, que podem alocar os timbres (de RAM ou ROM) em regiões diferentes do teclado, colocando-os lado-a-lado (splits) ou sobrepondo-os (layers). Usando um card opcional de RAM, o músico pode ter ainda mais 128 timbres, e mais 128 Hyperpresets.
O manual de operação, em inglês, contém 256 páginas e é bastante completo, entrando em detalhes conceituais sobre filtros e o processo de morphing do filtro Z-Plane. As informações a respeito das mensagens MIDI também são descritas em detalhes.
O filtro Z-Plane
A arquitetura interna dos geradores de som do Morpheus é baseada na estrutura oscilador-filtro-amplificador, e pouco diferiria dos demais sintetizadores atuais, não fosse pelo fato do seu filtro ser um tipo bastante especial, de recursos imensamente poderosos. Esse filtro, que a E-mu chama de Z-Plane Filter, é o principal responsável pela grande inovação sonora conseguida no instrumento.
De uma forma sucinta, poderíamos descrevê-lo como um equalizador paramétrico de seis bandas, sendo que o ajuste dessas bandas é dinâmico e controlável em tempo-real, de diversas formas diferentes. O pulo-do-gato está na forma como esse filtro se comporta: existem 197 configurações diferentes que determinam não uma única configuração das bandas dos paramétricos, mas sim como elas serão alteradas por meio de algum controle (a alavanca/roda de modulation, por exemplo), dando lugar a outra configuração diferente. Nos sintetizadores convencionais, que utilizam em geral filtros do tipo passa-baixa, a alteração da coloração de um timbre é feita cortando-se harmônicos superiores e - quando há controle de ressonância - enfatizando-se os harmônicos vizinhos à região onde há o corte. No Morpheus, como há seis filtros paramétricos plenamente ajustáveis, pode-se reduzir (vales) ou enfatizar (picos) harmônicos em seis regiões diferentes, o que dá um controle muito maior sobre a característica final do som. Com essa arquitetura, é possível não só criar timbres com bastante similaridade às formantes de instrumentos acústicos (e até das articulações vocais a, e, i, o, u), como também passar da configuração de uma formante para outra, gradualmente.
Essa transformação gradual de um timbre (formante) em outro é chamado de morphing, e pode ser compreendido fazendo-se uma analogia aos efeitos visuais daquele clip do Michael Jackson (Black or White), onde os rostos das pessoas se transformavam uns em outros, lembram-se? Pois aqui, o efeito é semelhante, só que no campo sonoro, e o músico pode usar vários controles manuais para efetuar o morphing de uma sonoridade para outra (e vice-e-versa). O resultado sonoro é impressionante, e as possibilidades inimagináveis.
Devido à enorme complexidade de programação do filtro Z-Plane, para facilitar o trabalho do usuário, o Morpheus já possui 197 configurações prontas, que determinam não só os tipos de filtragem inicial e final do processo de morphing, como também como o morphing pode ser controlado. Essas configurações estão classificadas em seis grupos: Flangers (séries de filtros notch que produzem efeitos semelhantes aos obtidos com flangers), Dipthongs (ressonâncias vocais encontradas em vogais), Standard (variações de filtros de 2 e 4 pólos), Equalization Filters (variações de filtros paramétricos tradicionais), Complex Filters (filtros jamais usados em aplicações musicais) e Distortions (onde o nível do filtro é usado para controlar distorção).
Além de se poder controlar gradualmente o morphing do filtro Z-Plane (da frente para trás, e vice-versa), também é possível controlar a sua abertura (freqüência de corte) inicial, bem como as amplitudes dos picos das bandas paramétricas
(Transform 2).
Timbres
E o que se pode esperar de um instrumento dotado de recursos incomuns? Sons incomuns. É verdade, pois a maior parte dos timbres disponíveis no Morpheus nada têm a ver com os timbres convencionais que estamos acostumados a ouvir na maioria dos instrumentos atuais. Algumas pessoas poderão afirmar que os sons são muito estranhos, e até certo ponto elas têm razão. Entretanto, é preciso encarar esses sons estranhos como novas possibilidades de que se dispõe para criar música. Certamente, o Morpheus não é o instrumento adequado para se executar uma valsinha do século passado, nem para se criar um arranjo tradicional de samba-enredo. Muito além disso (sem desprezar esses gêneros musicais e seus arranjos convencionais), ele é um instrumento voltado para o futuro, e que oferece novos meios de expressão e criatividade sonora. Por isso, é possível que muitos dos timbres programados de fábrica venham a ser classificados de experimentais, minimalistas ou qualquer outro termo que tentem usar para definir aquilo que ainda não existe (ou não existia). Isso é evolução!
Diversos desses timbres são excelentes, pela sua própria característica básica, e mais incríveis ainda quando são explorados os seus meios de expressividade e nuances, via morphing. Os pads (timbres para fundo, chamados por muitos músicos de cama) são sensacionais, e podem dar uma ambiência muito interessante em muitos tipos de arranjos. Não poderíamos deixar de destacar o 000-Z-Synth, um pad com flanger controlado pelo modulation; o 038-Cookin’, que recria a sonoridade dos Minimoogs; o 095-OzBoiz, que explora as formantes de vogais; e o 069-PickIt, que, com o morphing, permite executar um violão com cordas de aço dedilhadas perto ou longe da extremidade.
Ainda que o Morpheus não seja indicado para quem deseja usar timbres convencionais (para o que seria melhor usar um módulo General MIDI), há muitos timbres comuns, alguns excelentes, como é o caso da flauta 029-Flute e do órgão 046-Leslike, este último com uma simulação perfeita de caixa Leslie. Há ainda metais (incluindo um interessante e morphável trompete com surdina), cordas e baixos também de muito boa qualidade. Há diversos patches de percussão, desde alguns kits de bateria de Dance Music até coleções individuais de bumbos, caixas, pratos, etc, e também muitos efeitos sonoros.
As amostras digitais disponíveis para se criar os timbres vão desde sons acústicos amostrados (sax, piano, baixo, etc), até sons de sintetizadores (Moogs, ondas quadradas e pulsos, ondas triangulares, etc), passando por amostras de órgãos Hammonds e instrumentos de percussão. Na criação de um timbre, pode-se partir de qualquer uma das 242 amostras, sendo que é possível ainda emendar pedaços de várias amostras que estejam em regiões consecutivas da memória, produzindo efeitos rítmicos do tipo conhecido por wave-sequence.
Efeitos
O Morpheus possui dois processadores de efeitos (A e B), que estão separados dos patches de timbres, e atuam como se fossem unidades externas. Sua programação é feita na função Midimap, onde também é possível armazenarem-se diversos outros ajustes, além daqueles dos processadores de efeitos. Ao todo, pode-se criar até 16 Midimaps diferentes.
No Midimap, pode-se definir a intensidade de cada efeito (A e B) para cada uma das 16 partes timbrais, independentemente, e para cada um dos processadores é possível definir o tipo de efeito e ajustar seus respectivos parâmetros. No processador A, os efeitos disponíveis são: Room, Warm Room, Small Room 1 e 2, Hall 1, 2 e 3, Chamber 1 e 2, Plate 1 e 2, Early Reflections 1, 2, 3 e 4, Reverse Early Reflection, Rain & Shimmer, Stereo Flanger, Phaser, Stereo Chorus, Delay, Cross Delay e Echo. No processador B, temos: Fuzz, Fuzz Lite, Stereo Flange, Phaser, Stereo Chorus, Delay, Cross Delay e Ring Modulator.
Controles, expressividade e MIDI
O Morpheus incorpora os recursos fabulosos de expressividade já conhecidos de seus irmãos Proteus, onde existe uma variedade de configurações de controles e, felizmente, todas elas foram incorporadas também no novo produto, algumas delas aprimoradas.
Existem oito curvas globais de resposta de velocidade, o que permite ajustar a resposta dinâmica do instrumento à maneira peculiar do músico tocar. Com esse recurso, é possível a qualquer um adaptar o Morpheus ao conjunto força-teclado, isto é, à sua maneira de tocar toca em seu teclado controlador (usado para comandar o Morpheus). Dessa forma, ao invés do músico se adaptar à resposta do Morpheus, ele pode adaptar este último à maneira (intensidade) com que ele já está acostumado a tocar, obtendo o resultado desejado, sem mudar a dinâmica de seus dedos.
O Morpheus reconhece todos os comandos de controle MIDI (pitchbend, modulation, volume, pan, sustain, etc), e pode direcioná-los para controlar praticamente qualquer parâmetro do som, incuindo o morphing. Graças à essa flexibilidade, é possível, por exemplo, usar a intensidade da nota (key velocity) para controlar a abertura (freqüência de corte) inicial do filtro, o aftertouch para controlar o morphing, a roda/alavanca de modulation para controlar a intensidade do LFO, que por sua vez pode estar modulando também o morphing. As combinações entre parâmetros controladores e parâmetros controlados são intermináveis.
Na programação dos timbres, dispõe-se ainda de outros recursos, como portamento, atraso e inversão da amostra e um gerador de funções que pode atuar sobre quase todos os demais parâmetros, com oito estágios totalmente programáveis, onde cada um pode ter diversos formatos. Isso tudo aliado aos parâmetros convencionais (geradores de envoltória, etc) encontrados nos outros sintetizadores, dão ao Morpheus uma imensa gama de possibilidades na edição de timbres.
Sendo um módulo sem teclado, é imprescindível que o Morpheus tenha uma flexibilidade de configuração de controles MIDI, como já foi citado anteriormente. Além disso, ele incorpora recursos práticos, como a possibilidade de se criar até quatro tabelas de remapeamento de números de mensagens de program change com os números dos timbres internos. Reconhece mensagens de bank select, o que permite chamar diretamente qualquer um dos timbres de qualquer um dos bancos, e transmite via MIDI Sys-Ex diversos grupos de dados internos, o que permite salvá-los em um seqüenciador ou computador.
Conclusão
Na história da evolução dos instrumentos musicais eletrônicos dos anos 60 para cá, cada década teve um acontecimento marcante. No final da década de 60 surgiram os primeiros sintetizadores comerciais; nos anos 70, surgiram os primeiros sintetizadores polifônicos e os teclados sensitivos; e a década de 80 teve os primeiros samplers comerciais e o padrão MIDI. Talvez a década de 90 seja a época em que veremos novos recursos sonoros e novos meios de expressividade serem introduzidos em instrumentos de preço acessível. Esse passo já começou a ser dado por algumas empresas que estão apostando em novos processos de geração e controle de timbres, como é o caso da E-mu, com o Morpheus. As conseqüências que isso trará para o meio musical, ainda não são bem claras, pois não sabemos para que lado a música moderna será levada, a partir da disponibilidade de novas ferramentas de criação, como os instrumentos que operam com morphing e physical modelling. Entretanto, o começo já esta aí, e é provável que muitos artistas se dediquem a explorar os novos horizontes. Para quem quer ultrapassar o limite da sonoridade convencional, existente na maioria dos instrumentos atuais, o Morpheus é uma excelente opção.
Ficha Técnica: Morpheus Z-Plane Synthesizer
Descrição: Módulo sintetizador multitimbral sem teclado, com 16 partes timbrais; polifonia total de 32 vozes; 256 timbres internos (128 em RAM, 128 em ROM); entrada para card de expansão de memória RAM de timbres (mais 128); 242 amostras em ROM; filtro especial configurável tipo Z-Plane; controles MIDI endereçáveis; 8 curvas de resposta de velocidade; dois processadores internos de efeitos;
Conectores: seis saídas de áudio (3 pares estéreo) de 1/4, sendo quatro configuráveis como insert de efeitos externos ou entradas para mixagem de outros equipamentos; MIDI In, Out e Thru;
Especificações eletrônicas (segundo o fabricante): amostras digitais de 16 bits (linear); freqüência de amostragem de 39 kHz; faixa dinâmica maior do que 90 dB; resposta de freqüência: 20 Hz a 15 kHz; THD menor do que 0,05%; consumo: 25 W; peso: 3,1 kg;
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